cabeça bagunçada

Pensamentos de quarentena

08:18





Ouça ouvindo: Bem Que Se Quis - Marisa Monte

As lágrimas irritantes molham meus fones de ouvido porque a gravidade as fazem cair. Eu fecho os olhos, limpo o rosto com a manga da blusa dobrada, respiro fundo buscando o ar que falta pois meu nariz está entupido, e percebo que muito tempo já se passou desde que meu peito começou a doer. E dói, sempre, como se fosse a primeira vez. De tanto tentar esconder os motivos, ou, de tanto tentar esconder de mim mesma que dói, eu parei de tentar. Então não sei ao certo o que aconteceu: se foi Deus que me abandonou ou se eu o abandonei. Se abandonei Deus, fui burra pois não há eu sem Deus e agora até as coxas desistiram de funcionar. Mas se Deus me abandonou, o que exatamente eu deveria fazer? Continuar rezando na esperança de ser ouvida? Continuar pedindo respostas para perguntas que eu nem formulei? Às vezes imagino alguém lá em cima dando risadas de mim, como se eu fosse idiota o suficiente para acreditar nEle. E agora, aqui, expondo minhas feridas mais incuráveis e profundas, percebo que, no fim, o problema sou eu mesma.

Eu não vejo o fim disso tudo e, muito menos, vejo o início do fim. Eu gostaria de ser guiada por alguns segundos para sentir nem que seja um toque externo nessa minha mão gelada, mas nem isso. Cada dia que passa percebo que está cada vez mais escuro e eu estou cada vez mais sozinha - o que é triste mas é mais seguro. Acontece que eu nunca pedi por segurança. Nunca pedi por conforto ou realeza mas muito pelo contrário, sou tão entregue que não me vejo sendo instruída por qualquer outro sentimento que não a confiança. Eu confiava demais. Em tudo, em todos e em Deus. Mas agora, algo em mim morreu, o que me fez querer criar essa barreira mais que visível que faz com que eu quebre todos os elementos sólidos dentro de mim só para que ninguém se aproxime pois eu sei que se alguém entrar vai querer sair e isso vai doer como da primeira vez, de novo.

Entrei naquela parte da vida que a gente tem tanto medo de buscar, porque o novo pode ser muito pior do que já existe. E eu realmente não quero sair debaixo de onde estou, que não é bom, mas pelo menos é conhecido. E eu sinto fome de aventura. Sinto sede de paixão e de intensidade. Porém, eu morri. Uma parte minha foi entregue à tudo o que eu perdi e toda vez que eu fecho o olho só consigo ver um passado muito mais excitante do que meu presente monótono. Nunca fui tão apática. Nunca me odiei tanto. Nunca quis tanto ser mais nova e viver tudo o que eu me dispus a viver. Hoje, não sei se por medo ou por qualquer outra coisa, só quero meu conforto estático e algum plano confortável que me dê estabilidade por alguns anos.

É triste perceber que não consigo passar dos primeiros parágrafos pois eu me bloqueei completamente para sentir qualquer coisa. Ontem a noite, na penumbra do quase sono, lembrei tanto do que sonhei e acabou que foi um suspiro perceber que eu ainda sinto, nem que seja só dor. Fico tão desconfiada desse meu confinamento voluntário que qualquer sinal de qualquer coisa vira um alerta. Me pergunto se isso é coisa da idade - e concluo que não, pois aos 20 Patti Smith se mudou sozinha pra Nova York. Talvez sejam meus traumas, o que também não faz sentido porque não vivi o suficiente para ter traumas tão complexos. E concluo que é: Deus.

          E.P.O.C.H

A vingança divina finalmente se fez presente e não posso deixar de admitir que me sinto leve. Agora, finalmente, eu e Deus estamos quites e ele não tem mais nada a tirar de mim, já que tirou tudo o que eu tenho: meu coração e minhas palavras. Cada vez mais me murcho como o girassol que busca a luz debaixo da terra e, cada vez mais, as metáforas me fogem como se elas não me pertencessem. Vai ver, elas nunca me pertenceram mesmo e eu que sou soberba o suficiente para acreditar que algo me foi tirado. Eu nunca tive nada. Eu tinha esperança, mas isso ainda tenho. Não tenho visão, nem ambição, nem amo nada o suficiente para depositar minhas mais profundas poesias - que não, não escrevi. Mas tenho amianto, e tenho plantas e uma roupa de cama nova que parece me abraçar no fim do dia. A luta parece eterna e só existir me cansa.

É engraçado escrever e sentir raiva a cada palavra que digito. Sinto raiva do que penso e ainda mais de como isso é transformado em textos, em livros, em crônicas. É que se cada parte minha estivesse me puxando para um lado complexo da minha personalidade e eu nunca entendi muito bem como isso funciona. Gostava mais de quando eu me admirava e me sentia bem compartilhando meus sentimentos pro mundo. E agora eu sinto o quê, medo? Medo de ser vulnerável, de admitir que estou péssima, que a cada dia que passa sinto mais vontade de desistir? Percebi que ser adulto é assumir uma parte sua que te torna deplorável: meu ex-namorado virou fumante, grande parte dos meus parentes são alcoólatras, eu mesma estou viciada em remédios. O que me dói é pensar que isso nunca vai acabar porque depois de adulto, a gente morre.

Ainda me faltam muitos pensamentos avulsos para escrever sobre e eu não consigo organizar porque as gavetas estão todas trancadas. Em 2015 escrevi um poema que apontava a forma com que eu me guardo e, ironicamente, o poema se chama gavetas mesmo. Acontece que naquela época eu era a personificação da exposição em massa e amava ser quem eu era. Amava falar alto e amava pensar que várias pessoas estavam me lendo, simultaneamente, e pensando como eu conseguia espremer bem a sintonia adolescente. Analogamente, hoje, mais do que nunca, me tranquei. Poucas pessoas - e isso pode ser, literalmente, contados nos dedos - sabem os demônios que guardo. E agora vocês: vocês que estão lendo esse texto (que espero que não sejam muitos) sabem um pedaço dourado desse palito velho e mastigado que sou. Sabem que, por mais que eu não escreva muito sobre as minhas dores, vocês sabem que estou tentando, primeiramente, acessa-las.

Sei, por fim, que a tendência da curva é sempre diminuir. Hora ou outra, a gente enfrenta o monstro que nos faz sonhar por oito ou nove horas sem parar e, depois, enfrenta o monstro que não deixa a gente dormir. E esse é o ciclo. Por enquanto, o que me resta é, veja bem, manter a fé de que esses dois últimos anos: ou serão esquecidos ou serão lembrados o suficiente para não se repetirem. De agora em diante - digo isso mas a verdade é que não tenho plano algum -, pretendo ser um pouco menos minimalista e deixar os fones se molharem sempre que for preciso.

Uma parte minha que vocês não conhecem talvez seja essa: escrever nunca foi minha primeira opção.

cabeça bagunçada

de novo

07:27



EEDN // Our idea of HEAVEN!! Saturdays are for reconnecting with nature - a nice walk barefoot and a cup of green tea will do miracles! #barefoot #eedntea #eednisreal

Leia ouvindo: Mr. Blue Sky - Eletric Light Orchestra 

Hoje eu olhei pra lua e senti o que sentia quando eu era um feto invertebrado. Hoje eu entrei no mar e senti a fúria que sinto sempre quando preciso reivindicar meu tempo, pois eu sou isso: a luz, a velocidade, a vida. Foi bom sentir pertencimento depois de tanto tempo achando que a solidão é e não é minha aliada. E ela é e não é mesmo, mas depende do ano e depende da época e depende do clima tropical que habita a casa inóspita do meu sangue. Hoje, eu acho (ou achava) que essa pontada nervosa de "ai, ui!" que dá sempre que eu luto contra meus instintos naturais de "ser-quem-sou" se dá devido os longos meses de tentativa de obstruir o que sou. Lutei contra o sofrimento. Lutei contra a diferença. Hoje eu quero todos meus conflitos de volta, do jeitinho que eles são. E é aí que entra a lua: a lua sempre foi a porta de entrada para sentimentos inacessivelmente sóbrios, mas agora que é noite eu percebo o que eu sempre soube: que na verdade eu sou nada e faço aqui o suficiente não para me tornar alguém, mas para alguém se tornar alguém. 

Sou a catalisação e isso me faz pensar: pra onde vai o catalisador? A reação acontece e todo mundo se sente mais substrato, mas, por algum motivo, eu me sinto sempre... estática. A inércia não funciona comigo. Por mais que a lua, o céu, o mar e todos aqueles elementos citados em músicas do Natiruts me empurrem, eu não consigo me sentir mais funcional para o meu próprio propósito. Sou tão passageira quanto o vento (outro elemento), que destrói ou organiza o que toca (se é que toca) e depois, quando eu deixo a luta para aqueles terceirizados da própria vida, eu retorno ao que sempre fui: onda. Bebi um gole de cachaça da minha terra, pinguei duas gotas de colírio e roí todas as unhas que me restavam para eu poder perceber que, vai ano e volta ano, mas eu sempre vou continuar sendo a mesma extensão da natureza que grita, que arde, machuca, mas, acima de tudo, sente. 

Mas esses sentimentos são mais difíceis de serem acessados do que parece. Eu entro em uma roda-viva tão imersa que, quando vou ver, estou acelerada e constante e nada me para. E aí eu paro. E quando eu paro, olho ao redor e percebo que não estou sendo-quem-sou e aí recomeço tudo. Esses sentimentos, por sua vez, enfrentam uma corda bamba de linha de costura, finíssima, frágil, que a qualquer suspiro pode se tornar... dor. E se eu for dor? E se eu for feita para sentir continuamente o braço quebrado, o coração partido, a insistência do amor que nunca-fica? Eu sou feita de mundo, de restos de Terra, e os restos da Terra são feitos de mim mesma. Isso se tornou meu quase inferno, mas o "quase" entrega que existe um suspiro de vida e ah! tem mesmo. Gosto de viver. Viver é amarelo e amarelo lembra a pamonha da minha avó. 

                               midnight-charm: “  “Moonage Daydream” Rianne Van Rompaey photographed by Colin Dodgson for Vogue UK May 2016 Stylist: Francesca…

Esse ano faço 20 anos, redondo, junto com a década. Esse ano eu preciso voltar a ter 15 anos pois sinto uma saudade absurda de quem eu era nessa época - eu era apaixonada pelas formigas, você acredita? - e sinto saudade da delícia que é não saber o que fazer da vida. A dúvida não era amarga, o calor não significava indisposição e eu sentia fome. De manhã eu acordo e estou disfarçada de adulta, quando na verdade eu só sei ser adolescente mesmo. Quando foi que as palavras envelheceram? Não consigo ler Hamlet, não sinto mais tanto gosto pela Bruna Vieira, tudo o que eu queria era uma rede velha e um livro de suspense. Quando foi, Xango, que perdi meu coração pra lentidão? Quando foi que a preguiça de ser tomou conta da vontade de ser arte?

Demoro dias para escrever um texto. Demoro mais oito dias para achar que o escrevi presta minimamente para estar no mundo - tolice a minha pensar, e eu sei disso, que o que escrevo um dia foi meu. Tudo precisa ser tão teorizado e cientifico que me esqueci que o rosto de Deus é um conceito inalcançável. Estou me culpando de tantos poemas diferentes que, no final da vida, minha obra póstuma será meus erros em uma coletânea de capa azul sem título, apenas um carimbo dourado que simboliza a feitura manual de cada desarrependimento que fez de mim a ontologia mais paradoxal da filosofia: tão quente mas tão quente que congela. Fiquei congelada uns anos e agora gasto meu dinheiro com música. Com comida. Com alma. Falta tanta coisa que não coloquei na lista, mas ainda sim, gosto do calor que sobe do cóccix até a medula e sussurra, quando chega ali pertin do trapézio: "moça, tem um tempo ainda, viu?"

Viu. Tem jeito, não. Estou ocupada demais precisando de mim mesma pra aumentar a fila com mais e mais hifens e himens e eu estou tão corrompida de areia que sai água do mar pelo nariz (que delícia), mas eu vou te dizer: não tem, e não tem mesmo, espaço para vazios. Pretendo viver tão intensamente que a língua portuguesa terá vergonha de ser fascista. Vou voltar a ter sede e sentido e vou ser aquela que chora com o eclipse, acredita em todas as entidades possíveis e ama todas as pessoas que cruzam o caminho curto e pedregoso. Aquela criança boba que ninguém suporta pois é agitada ao extremo (mas que, quando para, todos acham que está doente). Estive doente durante esse período de despaixão e doeu, merda, como doeu. Mas agora eu aprendi mais ou menos como esconder isso  e pelo menos posso reconhecer a pequena tentativa de escolher alguma coisa: escolhi, enfim, ser feliz. 

Não tem, e não tem mesmo, espaço para orgulho. 


"Amor"

Quem nunca se foi

07:39

girodentado:  “-  ”



Leia ouvindo: Cananéia, Iguape e Ilha Comprida - Emicida

Fiquei alguns dias dizendo para mim mesma que eu não tenho nada para te falar. De certa forma, eu realmente não tenho - sempre quando começo a escrever, paro no meio pois sou tomada por uma certa insuficiência vocabular que não se aproxima ao que eu sinto, muito menos ao que eu quero sentir. É estranho assistir sua vida de fora e perceber que esse cenário é distante do que eu vivo. Frequentemente, fecho os olhos e me recordo de um presente-passado com uma cama que a gente compartilhava, com as doloridas caminhadas de domingo, com a delícia do anti-alérgico que me permitia dormir um pouco mais. Com você, do lado. Me sentia infinita.
Mas, acredite ou não, não é disso que eu sinto falta. Não sei se é a falta que eu sinto de verdade ou se é apenas o desacostume de viver a vida liberta. Sei que sempre fui uma pessoa muito livre - comigo mesma e até mesmo com os demônios que me habitam -, entretanto, a liberdade que descobri é nova. Como é estranho não estar presa e não estar doendo. É isso que mais me deixa boquiaberta: nada dói. Se doesse, talvez, seria mais fácil denominar todo esse fluxo de consciência e eu poderia falar: "você me machucou..." mas não. Sua ausência foi a luz branca que me abraçou durante todas as noites penumbradas e saber que você me vigia - e te vigiar - me faz querer te tocar apenas para ter certeza que você ainda existe.
Talvez, se você for embora e a gente se tratar apenas como um marca-páginas bonito, talvez, a gente se esqueça e não é isso que eu quero - quero a memória da diáspora e quero a esperança do futuro enquanto eu não conseguir te encaixar nos dois extremos do meu corpo. Meu corpo chora sempre que pensa em você. Admitir isso assim é fraco e eu cheguei muito longe para restabelecer as ladainhas que tanto ignorei todos esses meses. Mas isso fica de lição: não dá para ignorar o que é verdade. E a verdade é que me enfiei no labor de martelar coisas que inevitavelmente vieram a tona. Eu não quero ter que lidar com isso. Quem sabe a Bárbara do futuro encontre as maneiras de sair desse labirinto bem desenhado e enfrente, de uma forma que eu, hoje, não consigo enfrentar, os conflitos entre o céu e o mar que, inevitavelmente, são meus.
Quantos advérbios, meu Deus!
             A brincadeira da melhor perspectiva

Mas eu tenho muita coisa para te contar e, ao mesmo tempo, não quero desenvolver nada. Não quero colocar as palavras em uma ordem, não quero escrever nada que faça sentido. Eu gostaria de encarar a sua presença no ressinto e poder dançar a noite inteira te olhando e sabendo que você me olha também. Quero poder encontrar o sentido da chuva fora do seu quarto e quero apenas pegar na sua mão e me despedir temporariamente pois uma parte minha quer muito te reencontrar - enquanto a outra, revira os olhos sempre que você aparece.
É como se a calma tivesse encontrado um som . Finalmente posso deitar e ter a beatitude de quem vive e vive plenamente em prol da própria vida. Não busco pois cansei de buscar. Entretanto, é revelada a hora de acordar e percebo que ainda é noite, por volta das três. Muito tarde pra voltar a dormir e muito cedo para me levantar. O meio termo é o som do grilo que esqueceu o cobertor do lado de fora - deitada, propriamente acompanhada de mim, ouvindo aquelas vozes-sonoramente-nulas que ditam e ditam e ditam e eu sequer sei de onde vem isso tudo. Enfim, a paz não é a não existência do caos. A paz é o caos sendo resolvido mecanicamente e da forma mais calorosa possível.
Meus conflitos internos, que viraram cartas de amor, hoje, perseguem toda a pele e todo pêlo que tenho mas finalmente encontrei uma gota de resposta. É incrível ser átona. É perfeitamente belo viver em cima da corda bamba que balança para lá e para cá mas o peso nos meus pés e o peso do mundo são excelentemente paralelos e então: fico.
É saudade. É a combinação perfeita entre saudade (boa) e saudade (ruim). É a mensagem que digitei e não enviei (ou pensei e não digitei (ou nem cheguei a pensar)). É a surpresa que me faz sair pulando da aula de literatura. É o "sei lá" que faz, curiosamente, tudo fazer mais sentido. Encontrei, em mim, veja bem, tudo o que precisava para não me sentir afetada com o mundo em si: é o som. O tic tac. A leitura em voz alta que compõe o ritmo das batidas do meu seio cheio e repleto - quando eu achava que eu não seria mais capaz de amar, penso o contrário. Ao contrário, me aparece a fome e a cena de quem está crescendo como um camaleão ou um polvo que fica se adaptando de ambiente em ambiente mas em casa, descanso. Nunca dei tanto valor aos meus olhos fechados - mas como eu gosto de me abrir pro mundo! Seja bem vindo: apesar das mudanças, continuo a mesma.

cabeça bagunçada

Texto de avião

14:08


F&O Fabforgottennobility



Leia ouvindo: Eu amo você - Tim Maia 

Não sou quem eu gostaria que fosse. Essa frase foi difícil de escrever não apenas pela estrutura sintática confusa e, talvez, até errada. Mas também porque não sou calvinista e não acredito em destino (mas sei que ele existe aqui e ali). Enquanto o Sol bate e descasca minha pele, sei que a vida é feita de escamas e a cada reza viro outra - algumas vezes gosto de mim e em outras não me aturo. Quem eu sou hoje? me perguntei ontem. Amanhã me perguntarei de novo e a resposta será nova, naturalmente. Eu, que sou eu, tento deixar o tempo passar na minha própria velocidade, mesmo sendo perdida de nascença (nasci e só depois fui ver o que fazer). Portanto, eu, que sou eu, percebo que é inevitável se sentir presa à uma linguagem que conta com 26 letras - amo a literatura, mas ela sozinha é depressiva. Talvez seja por isso que não sou boa em mais nada: pois sou triste. E ao contrário do que pensam, a solidão não faz o poeta. O poeta é feito de portas e a solidão cria janelas a serem puladas. Nem sei mais o que dizer! Me disseram, outro dia, que meus textos salvam vidas e que minha escrita é meu encanto - estão todos tão perdidos quanto eu, graças à Deus! Durante meus curtos surtos de inspiração, fico feliz que eu sou eu e eu encontrei, tão nova, os signos da própria vida. "Vida" não me remete à nada. Mas ontem, quando pensei em morrer - e hoje, que ainda penso -, logo dormi. Vai ver meu estado de natureza seja a inestação e viver seja só um estágio longínquo de experiência a ser adicionado ao currículo. Mas no fim, ninguém te pergunta se estas vivo. Acordei com a mensagem: "Amiga, viveste?" e eu não soube responder. Não respondi até agora. Sigo. Eu que lute. Abandonei, por fim - por gim - a ideia fabulosa de me jogar na janela do hotel e fiquei sozinha com meu próprio abandono. Se não existissem as linhas, talvez, eu seria mais feliz. As linhas são territórios que ultrapassam a minha própria imaginação e, se eu fosse concretista, escreveria um desenho sobre isso (mas como não sou poeta de um mundo caduco, deixo o meu desejo póstumo para Marcus Cardoso). Ouço Tim Maia demais e penso tanto em praia que duvido da liberdade, mesmo que tardia. Sou tão criança que me comparo à minha mãe e, ao mesmo tempo, aos filmes que vejo. Sou o reflexo de um espelho sobrenatural e extinto, talvez, extinto por mim mesma. Filosofo tanto que a cada interrogação morre algo novo em mim - perdi as contas de minhas desistências, inclusive, insisto em desistir de pessoas (iguais) todos domingo. É a saudade. Mas agora vai; acabou mesmo. Sou nova e até comprei um esfoliante para renovar as células pois se eu fosse esperar 7 anos para isso acontecer, morreria afogada na minha própria sujeira. Sou alguém que gosta de pontuação pois símbolos são necessários para afirmar o que a mente, sozinha, não entende. Por isso faço tantos rituais - queimo o literal do passado, realizo bruxarias, enfeitiço meu corpo com sal e água. Os pontos, portanto, marcam o que as palavras deixam soltas e eu, que sou eu, insisto em deixar a responsabilidade do fim para o próprio fim. Ele que se termine.

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cabeça bagunçada

Dezenove

12:19





Leia ouvindo: Socorro - Arnaldo Antunes

Há algum tempo sinto uma angústia - que em alguns corações chamamos de dor - que não consigo explicar. É explicável, de fato, mas de alguma forma, não existe linguagem que se aproxime da mistura homogênea e catastrófica entre beatitude e agonia rasgante. O pão de queijo assa na cozinha e eu o deixo queimar. Deixo-o queimar pois esta é a frase que mais se aproxima do que sinto - o bairrismo, o caos e o cheiro de fogo que é familiar e não parece incomodar. A fome. E mesmo assim, o deixo queimar pois me parece a única coisa que sou capaz de fazer no momento.

Associo, portanto, a falta à falta de sentimentos concretos e conhecidos que, anteriormente, nomeava. Hoje, portanto, me contento com as vírgulas e os espaços em branco quando falo: "ah sei lá, é como se fosse... sabe, assim?". E o interlocutor entende. Mexe com a cabeça positivamente pois é unanime: todo mundo sente. A cara feia, o sorriso indiscreto, a queimação na pele que não é física pois não é na pele - mas como ignoramos a alma achamos que o corpo é o método mais eficaz de explicar aquilo que não dói, mas se sente. A língua portuguesa é falha; a arte é vazia; o olhar é raso demais. Só nos resta ser e existir pois existindo se revoluciona.

Me perguntam com frequência como é ser eu. Ninguém de fora me pergunta, explico: na verdade, as vozes que me habitam tentam reafirmar os pés no chão me perguntando como é ser eu. E eu não sei responder pois eu não existo - me inventei a vida inteira e todos ao meu redor acreditam nessa mentira que no tribunal eu dou o nome de "eu". "Eu" nada mais sou que a materialização celular de sentimentos que existem em alguma camada do universo e que precisava passar a existir num mundo material demais. Sou isso - pois sou. Nós. Sois. Sóis.

            maria fernanda

O pão de queijo continua queimando. E queima minha pele, o Sol. Até hoje não sei se Sol se escreve com letra maiúscula ou não. Me imagino o Sol, com toda sua maestria, explicando-nos que não existe forma para explica-lo. Imagino-no cacheado, de bochechas coradas - afinal, ele é o Sol - rindo de formigas tão pequenas que se acham enormes e quanta prepotência a minha me chamar de formiga! Eu nem sequer existo... Reiterando, então, o Sol me chama não para dançar, mas sim, para uma guerra fria: quem chorar primeiro, perde. Perdi pois a lua facilmente me faz as lágrimas caírem e como a lua é reflexo do Sol...

Em algum momento da minha vida monótona mas que, admito, bastante divertida, eu me prometi acentuar cada vírgula do sangue que corre nas minhas veias. A poesia é capaz de fazer isso. A poesia é capaz de criar o poço de féu cercado de arame do Drummond. O fogo que arde sem se ver de Camões. É isto: sou obra da poesia. Sou um poema que anda, que faz, que atua, que vaga. Eu odeio poesia - gosto das prosas. Gosto da desenvoltura de articular as palavras sintaticamente e ter o poder de atribuir sentidos infinitos que não necessariamente significam alguma coisa. Mas também, gosto dos romances. Gosto de ser Deus por algumas páginas e me sentir no domínio. Me sinto, porém, refém de algo maior. De algo que tem orelha de porco, rabo de porco, pé de porco, mas não é porco.

Como o pão de queijo - sendo mineira, gosto do que faço. Minha obra final é, portanto, única no mundo mas manipulável. Sou uma linha do tempo - um dia, deixo de ser. Um dia termino por contar a vida por meio de palavras. Um dia abandonarei os travessões explicativos que tanto gosto, as vírgulas que aprendi tão arduamente a usar. Um dia, abandonarei a poesia que sou pois não me aguento. Implodirei. Voltarei a ser, vejamos, a bola de fogo no inicio dos tempos que você é. Não o bastante, retorno com sentimentos novos a serem expelidos pela glote em forma de fonemas. Sou o eterno vai-e-vem da divindade e em cada retorno de saturno sou uma artista diferente - vim, nesse, com o azar de ser escritora.

"Amor"

Bakunin, me perdoa

14:03




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Leia ouvindo: I Lived - OneRepublic

Cheguei em uma parte do livro em que não consigo ler porque penso demais em você. Aconteceu isso com outra obra, que a autora leva o nome da sua mãe, que leva sua cidade como cenário - que tem o século passado como contexto, assim como a nossa história em outras vidas. Não consigo controlar o filme que passa na minha cabeça de todos os litros de sangue que derramei para me reerguer de uma forma que nunca fui capaz, mas fui obrigada a criar um força uterina para seguir em frente. Um ano depois, sinto que não evolui tanto quanto eu evoluiria há cinco. O crescimento não é linear, eu digo para mim mesma na esperança de não violar o meu seio aberto que ainda está ferido com a sua partida prematura ou tardia demais, não sei. Com a sua expulsão, me vieram outras questões que, um ano depois, ainda não sou capaz de compreender: eu. 

Existem muitas coisas que eu gostaria de estar sentindo mas eu me recuso a te fertilizar numa terra com o adubo de outra pessoa. Não. Existem amores que partem e que semeiam tanto quanto ervas daninhas, mas você floresceu demais e espalhou seu perfume até onde deveria ser inóspito. É lindo mas é dolorido pois, vai ver, quem sabe, eu sou só espinhos. E se for? Continuo espetando meus arredores como se fossem meus inimigos, mas eles só querem fazer parte. Parte de mim,parte da vida. Querem me conhecer, me tocar, seu a gota do meu suor. Não, não vou deixar ninguém entrar até eu não te enxergar em poemas, em filmes. Até eu fechar o olho e não enxergar o oceano de possibilidades que você carrega. Até eu acordar sem ter sonhado com sua traição. Não existe liberdade agora que você me invadiu, não existe escolha agora que eu conheço a vida com você do meu lado. Não existe mais "eu" agora que você me convenceu que sou especial demais para você. Não. 

Me olho no espelho e falo não, não, não eu não quero e eu não vou. Não vou voltar atrás e pedir para você bater cartão na minha vida falando da sua - e a minha? Não vou te mandar mensagem pedindo conselhos, pedindo ajuda ou exigindo esclarecimentos de um futuro que não nos pertenceu - você escolheu vive-lo sem mim. E eu me pergunto se um dia amarei outro alguém, e pior, me pergunto se alguém vai me amar como você. Como sou idiota, é claro que não. O próximo me amará muito melhormente pois eu me amarei ainda mais. De retrocesso em retrocesso e poemas que mando pois o coração é maior que as mãos, me digo que não precisaria ter te conhecido para entender o meu tamanho. Eu sou enorme! Fico assustada quando olho para cima e percebo que, meu deus, onde fui parar? Agora que estou sozinha eu não me sinto solitária - passei a ter a solidão como opção e não como castigo. E ah! Esta é a melhor coisa que eu poderia ter aprendido. 

Sem você, sinto falta de relacionar a arte a alguém que me preencha - sinto falta dos romances verbais e até das lágrimas inevitáveis quando eu chegava em Belo Horizonte. Você me fez odiar minha cidade. Você me fez odiar a minha vida. Você me fez te amar tanto que eu esqueci quantos anos tinha - graças a deus, eu sou anarquista e não me reduzo, não me modifico, mas foi por pouco. Por pouco não me rendi a sua tirania e me tornei fruto de um assalto identitário. Espero que um dia a gente volte a se amar sem o romantismo, pois este mata e me matou algumas vezes - meu sangue é os livros que brotam da terra fertilizada, aquela que não permitirei secar. A vida é uma criança e assim como o dicionário, formarei períodos infinitos até ressignificar a semântica inteira. 


Seja bem vindo, mas revolucione com cuidado pois eu estou mais forte do que nunca e sentindo o dobro, o dobro do dobro e dobro o tempo, se necessário, para estar aqui quando eu entender que, minha filha, você é foda - digo em primeiro pessoa pois a pessoa que está comigo desde sempre, veja bem, sou eu. Seguro o choro, tremo as mãos e grito na estrada pois o silêncio é a pior das doenças, a submissão é a pior das torturas. Ainda bem que você me deixou ir antes que me violasse, o que é bem mais fácil do que olhar para trás e arquitetar uma vida singular. Tola do jeito que era, acharia que sua proteção seria romantismo. E como disse, este mata. Morta, volto e reconstruo o que deixei cair enquanto te amava. Ainda te amo, quero dizer, não como antes e nem pretendo te visualizar no meu próximo livro. Apenas queria te dizer que sonhei com você essa noite e você estava lindo. Lê um poema que chama um novo amor é um presente da Rupi Kaur. 

Apesar das contradições, o que lhe escrevo é muito mais claro do que parece. Sua habilidade escassa de interpretação de texto, sempre muito primitiva, talvez, entenda que minhas palavras sejam uma ameaça. E talvez seja. Quando escrevo, não sou eu que escrevo. É alguém que mora dentro de mim e não tem voz alta o bastante durante o dia a dia - o crédito é todo dela, seja lá quem ela for. Entretanto, sei que você me entende quando falo que te amo mas não te quero perto - você me causa arrepios e todo mundo sabe o que acontece quando o cacto mostra seus espinhos. Hoje, me encontro excluída e retraída, como um tatu bolinha, esperando os golpes da vida para que eles não doam tanto quando chegarem. Me convença de que você não vai me assassinar novamente. Me convença que seu teatro fechou.

Infelizmente, as cicatrizes que você deixou são profundas e refletem a intensidade e o tempo que passamos juntos - tudo era em CAIXA ALTA: EU TE AMO, EU TE ODEIO, EU NÃO TE AGUENTO MAIS E POR FAVOR NÃO VAI EMBORA. Quando era gramaticalmente correto, eu estranhava - uai, o que é isso aqui que está dando tão certo? A calmaria me assusta, mas sei que o saudável é meio chato mesmo. Agora, mal consigo me encarar no espelho e não pensar no que você iria pensar se visse meu rosto tão redondo e meu vício tão aguçado em corrida. Será que alguém um dia vai amar minhas curvas do mesmo jeito que você as cultuava? Será que alguém um dia vai me tocar tão delicadamente igual você fazia? Tantos serás para resolver antes dos trinta... 

Você não me desejou um feliz aniversário e isso me partiu ao meio, mas tentei entender que você sabia que, no fundo, eu prefiro que você fingisse que esqueceu. Dói saber que você me conhece tão bem, mas só é meio egoísta. E enquanto eu organizo meus desastres naturais e tento alinhar minhas opções, espero que saiba que eu ainda penso em você, e o pior, ainda escrevo sobre você. Tenho chorado menos desde que a gente se desmanchou e, sem romantismo, estou muito mais feliz, sim - mas infelizmente, eu ainda sou a maior romântica que eu conheço. Vou te mandar um livro pelo correio, mas é para o seu irmão. Manda notícias. 



cabeça bagunçada

Eu tenho pressa

16:23


verbo ser/ver você – Enquanto você não vem - Larissa Adur



Leia ouvindo: A Palo Seco - Belchior

Existem coisas que já fazem parte de mim há tanto tempo que eu nem tento resignifica-las. Na maioria das vezes, apenas as troco de lugar na esperança de se sentirem mais confortáveis sendo sentimentos invasivos e desesperadores que nunca foram bem-vindos, mas existem e me bagunçam. Faz uns anos que vivo na correria - não na correria do sistema, mas sim, na correria de ser eu mesma, o que é muito pior. Como se a vida fosse acabar antes dos 30 e eu tenho que sair de casa o mais rápido possível pois não quero ser ruim, não quero perder tempo. O complexo é profundo o suficiente para me fazer pensar que não vivemos tempo o bastante para passar por todos os processos da biologia - nascer, crescer e morrer. E ao longo da vida, quantas vezes nós morremos e nos reinventamos em um corpo com células diferentes? Não dá tempo. Não dá tempo de ser tantos tecidos divergentes e tantas personas em um só amontoado de pele.

Daqui algumas semanas eu faço 19 anos. Aos 19, Adele lançava seu primeiro álbum que levava o nome da sua idade. Quando ela lançou isso ainda era muito distante para mim. E hoje, que eu finalmente tenho 19, me pergunto o que eu fiz de grande para levar minha idade como nome. Na minha idade, Taylor Swifit namorava John Mayer, na época, com 32 anos - isso, de certa forma, explicou minha estranha atração por pessoas que nunca vou conseguir alcançar. Sei que não posso transformar em regras as exceções, porém, não consigo deixar de pensar quanto tempo eu dormi para me considerar um peso morto num mundo onde, convenhamos, existe Bolsonaro como presidente do Brasil. Eu sou tão melhor que ele assim?

A resposta é óbvia e negativa. Mas ao invés de me sentir deprimida e preocupada, eu reescrevi minha história e coloquei num caderno novo os sonhos que eu tinha medo até de escrever. Coisas como publicar um outro livro (um que mude algo na história), receber um prêmio, comprar um apartamento. Sonhos que, há algum tempo, não mereciam sequer serem ditos em voz alta por serem audaciosos demais. "Sonhar" é um daqueles verbos que perdem o sentido quando são falados muitas vezes, mas eu até que gosto diss0. Significa que já faz parte da gente e daqui um tempo o sonho não será mais sonho - apesar de nunca, repito, nunca ser do jeito que a gente espera. Isso não é incrível? Uma surpresa nova a cada piscada!

Continuo me sentindo insignificante. E sim, escolhi voltar a morar com minha mãe depois de 2 meses morando em uma república que meu corpo repudiava. Tento não ver isso como um retrocesso, mas sim, como um progresso interno que simboliza a priorização da saúde mental ao invés das conquistas que sempre quis ter e que nunca serão aproveitadas se eu não estiver saudável o bastante para respirar ar puro. Foi legal, obviamente, mas eu não conseguiria viver mais um segundo naquele lugar que não tinha sentido nenhum para o meu corpo e, muito menos, para o meu coração. E daqui um tempo, quando eu estiver curada o suficiente e minimamente certa da minha grandeza, vou repor esse passo que dei para trás e dar um puta salto enorme para frente pois, apesar de ter 19 anos e não ter gravado nenhum álbum vencedor de todos os prêmios possíveis nem namorar um cara incrível de 30 e poucos, tenho bons anos pela frente. E se eu não tiver, digo, se eu morrer, também é um presente tão bom quanto a vida.

My inner moonlight ✨ Insta@mirenalos

Tento não me sentir tão péssima igual me sentia uns meses atrás. Sabe, o ócio me fez um bem que provavelmente eu só vou entender quando estiver entupida de sonhos - eles de novo - que almejei mas não medi as consequências. Quando eu perceber que meu corpo não é de lata e eu deveria ter dado mais valor ao vazio quando ele existia porque eu não vivo no meio termo. Eu sou demais, tudo demais, isso inclui existir tanto que tudo o que acontece no mundo, de alguma forma, é meu. Mas agora, nesse momento, eu sinto falta de me sentir sufocada pelo problemas do universo e pelos caminhos que quero traçar - e não pelo meu próprio quarto que, apesar das zombarias da minha mãe que me chama de mimada, parece me engolir por não ter um mísero espelho.

Outro dia minha mãe, esta que mencionei acima, me xingou quando eu me referi a meu sofrimento como "minha síndrome do pânico". A energia é a mesma da minha médica quando chamei a doença que nasceu comigo de "meu tumor". Não entendi a revolta. Sempre tive pra mim que aceitar certas coisas as tornam, inevitavelmente, menos doloridas. Isso significa que nem tudo que é meu é lindo e isso inclui as faltas de respostas que tenho ainda pela vida e vou ter enquanto respirar. Eu estou doente, de todas as formas, e não tenho vergonha nem medo das palavras visto que elas só têm o poder que você dá a elas. Para mim, a palavra "desgraça" tem o mesmo poder que a palavra "buceta" ou qualquer coisa do gênero. Não me sinto menos ou mais por viver em hospitais que não existem de verdade, nem me sinto pior por falar meticulosamente o que foi feito para ser falado. Palavras.

Apesar da pressa, que acabei percebendo, é bastante comum em alguns dos meus amigos também, eu vou caminhando já que o tempo é um tempo bem diferente do meu. Não tenho muito o que fazer e, visto que já escrevi muita a palavra "esperar", vou fingir que ela não existe e viver como em Jumanji - apenas procurando a sobrevivência e rezando para tudo isso acabar logo. O que é triste e pessimista, mas enquanto eu não encontrar minha linha de chegada, meu Everest, meu grande propósito e clichês e tal, vou apenas abrir os olhos todos os dias me agradecendo por estar viva. "Consegui", eu digo, não me olhando no espelho pois não tenho um.

cabeça bagunçada

O Buraco

08:18



𝓟𝓲𝓷𝓽𝓮𝓻𝓮𝓼𝓽 | Ludic Life



Leia ouvindo: Violent Crimes - Kanye West

Me olhei no espelho durante bons minutos, até perceber que eu não me reconheço mais. Não reconheço os cabelos curtos que eu sempre gostei, não reconheço meu rosto, diferente do que me parecia e, olha, é a única coisa que está comigo desde o início. Minha inconstância se baseia em me sentir exatamente onde deveria estar e ficar desesperada para sair daqui logo - saudade de quando o futuro era só uma ideia e tudo me parecia tão delicioso só de imaginar. Mas hoje não tenho muito o que fazer a não ser esperar pois quanto mais fundo eu cavo, mais coisas vou descobrindo e, consequentemente, visto que nenhum ser humano é isento de desgraças, pior vou ficando.

Há anos escrevo sobre crescer e mudar - não é atoa que tenho essas duas palavras tatuados nos pulsos porque não é fácil mesmo - e eu sempre acho que já aprendi de tudo. Obviamente, estando errada, abro mais uma porta que me leva à imperfeição de ser humana e angústia de nunca chegar a lugar algum. Ano passado, um hora dessas, eu estaria, talvez, me declarando para o que eu acreditava ser o amor da minha vida e hoje não estou muito melhor que isso. Imaginar é mais divertido do que viver porque não existem obstáculos na nossa imaginação. Nós nunca vamos prever que existem outras inúmeras possibilidades para tudo ser diferente. Quando fiz meus mil e quinhentos planos para me mudar para São Paulo, não estava no roteiro que, no final, eu ia simplesmente não querer e me apaixonar pelo meu próprio estado. Minas Gerais é minha casa, mas o mundo ainda é meu destino.

As coisas mudaram, isso é fato e inevitável. Eu mudei, o clima mudou, meu corpo mudou e eu continuo mudando todos os dias já que enfrento uma batalha singular sempre que pisco. E dói, continua doendo mesmo depois de todas as anestesias que tomei para tentar atravessar esse processo menos dolorosamente. Acabei mexendo demais no cabelo e exagerando um pouco no que chamamos de 'self care' e, no final, deu nisso: perdição total e choros no banheiro da academia. Me pergunto, agora que não tenho mais espelho no quarto, como eu vou sobreviver sem conseguir olhar para mim mesma num reflexo que não é nem perto da realidade mas serve para me distrair? Talvez seja por isso que eu goste tanto do dadaísmo. "Ceci n'est pas une Bárbara Morais" porque a Bárbara Morais é muito mais do que o espelho mostra - é muito pior.

Eu ainda tenho a sorte de conseguir encontrar palavras para o que eu sinto e o privilégio de saber o que eu faço muito bem. Minha falta de auto estima ultrapassa a minha própria alma e chega num ponto de acreditar que até Deus está decepcionado comigo porque eu durmo demais e como demais. Mas o que eu deveria fazer? Não é sobre estar parada, é sobre não ter para onde ir porque as portas estão fechadas - eu as fechei e perdi as chaves lá em São Paulo, naquele quarto de hotel, nas lágrimas que derramei no avião pois, por Deus, amo aquele lugar mas não consigo me imaginar vivendo cercada por restaurantes e museus. Eu preciso de espíritos. Eu preciso de literatura viva. Eu preciso das pessoas que eu amo me fazendo acreditar que eu vou chegar onde eu quiser, mas quando for a hora certa. Não, nem eu acredito nisso.

â—€@naturalheartsâ–¶

A questão é parar de culpar o destino por estar infeliz visto que a decisão de desistir foi minha. E, modestamente, eu desisti de uma forma muito glamourosa e sensata tendo em vista que minha saúde mental está melhor do que estaria se eu estivesse longe ou até mesmo nem tão longe assim, mas ainda, longe. A vida é dar um passo para trás para, posteriormente, dar dois pra frente. São aqueles clichês que você lê quando ganha seu primeiro livro 12+ mas que quando você faz 18 fazem um sentido absurdo. Eu ainda tenho a perigosidade de estar presa num corpo que não é meu, mas fazer bom uso dele. Ainda tenho algumas coisas que eu amo e algumas outras coisas que me amam de volta, mas para ser bem sincera, no fundo, eu acho que isso não importa muito.

Escrevo e escrevendo vou entendendo que tenho uma função nesse mundo - sem querer ser chata, mas não aprendi isso escrevendo, mas sim, bêbada, na casa de uma amiga, em que minha professora de Teoria da Poesia estava presente e disse que leria um livro meu, mas talvez eu não gostaria do que ela falasse. Não me importando, Aline, minha artista favorita, me convenceu que meu destino mesmo é ser escritora, e não professora. "Como eu vou fazer isso?", perguntei, obviamente, sem querer saber a resposta. "Eu não sei, mas pelo menos agora você sabe o que quer fazer", ela respondeu, sendo tão sincera que me fez chorar no dia seguinte, no banho, enquanto lembrava que bebi vinho demais e não devia ter dormido tão cedo. Isso me fez refletir: quando eu posso me considerar escritora?

Não sou o tipo de pessoa que é apaixonada pela vida e nem me sinto obrigada a isso, apesar de acreditar que tudo seria tão mais fácil se houvesse um sentido. Sou o tipo de pessoa que não acredita em nada, mas ama Jesus Cristo incondicionalmente porque, em algum momento, ele disse que é isso aí mesmo. Isso o que? Não sei. E é isso. Sou o tipo de pessoa que, sem nenhum tipo de auto destruição, preferia não estar viva, mas também eu não sou niilista o suficiente para acreditar que a morte é a solução da vida. Complexos demais para caber em 1,56 de altura, dor o suficiente para me assombrar durante meus 18 anos de vida.

Ode ao verme que primeiro comeu meus ossos para depois engolir o que restou do meu peito. Ainda bem que eu faço Letras porque se eu estivesse escolhido Psicologia eu teria desistido da arte e a arte ainda é minha salvação.

Meu recado final para mim mesma, que talvez seja a única pessoa que lê esse blog, - sem desmerecer meus 10k de leitores mensais, sinto muito por isso - é: arrume seu quarto, organize as coisas, se apresse um pouco mais, mas o suficiente para você não se perder dentro da sua própria vida. Equilíbrio é tudo e, como diriam nossos mestres, é só usar um pouco de droga e depois comer salada. Desculpem pela comédia sem graça, mas eu tenho visto muito Friends e me identificado mais do que eu deveria. Agora sim, meu recado final é:

continue não fazendo nada.

cabeça bagunçada

Liberdade mesmo que tardia

16:32





Leia ouvindo: listen before i go - Billie Eilish

Há um dia eu parti. Comprei uma mochila maior que meu corpo nada saudável, coloquei umas blusas e umas calcinhas lá dentro, comprei as passagens, na hora mesmo, só de ida, e fui, rumo ao que, até hoje, eu não sei. Fiz as contas e vi que não vai sobrar uma moeda para o fim do mês - tive que abrir mão de saborear um bolinho de abóbora porque esqueci que preciso voltar pra casa. Isso me obriga a ficar na estrada até que eu encontre uma outra casa ou, pelo menos, até eu conseguir arrumar uma forma de comer.

No momento, escrevo em um caderno que está em minha vida desde que fiz minha viagem internacional mais simbólica. Visto que isso faz tanto tempo, meu caderno ameaça acabar, mas eu sinto que preciso registrar o que essas 30 e poucas horas longe de casa já fizeram comigo. É pouco tempo, comparado com os dias que ainda ficarei de ônibus em ônibus que partem uma vez ao dia procurando um lugar pra dormir. "Ei, tem quarto vago?", eu pergunto. "Não menina, tá lotado!". E lá fui eu caçar a cama quente que desejei durantes as cinco horas de viagem. Cheguei com febre e dormi a tarde toda pois estava doente de saudade de casa - desejei voltar, como desejei! Mas eu já tinha chegado longe demais para voltar atrás. Acho que, cedo ou tarde, talvez quando eu tiver uns 50 anos, vou entender um pouco melhor o que essa viagem pra dentro de mim fez comigo.

Sou de Minas. Minas Gerais é minha casa há 18 anos, mas eu só conheço, digamos, o meu quarto. E hoje, conheci a sala. Daqui uns dias, vou pra cozinha. Depois, quem sabe, vou conhecer as entranhas do estado que foi tão gentil comigo, mas que, por ignorância e comparação, eu não sabia que ver montanhas todo dia era um privilégio. Eu tenho adorado sentir o cheiro da história, passar pelas ruas e me sentir em outro século. Pra quem só via carros e asfalto, um bequinho de paralelipípedos soa tão poético quando está meio chuvoso.

Não viajei para Minas para me convencer de que gosto daqui - talvez até seja um pouco disso, mas acredito que posso escolher transformar essa informação em algo mais dramático. Disse o filósofo: "conheça-te a ti mesmo". Era isso mesmo? Então assim fiz. Inconscientemente, comprei as passagens para meu próprio estômago. Acontece que amar o que vem de fora é fácil porque é desconhecido, é novo e óbvio. Mas desde que me joguei nessa de desbravar as vísceras de tudo o que é meu, percebi que existem coisas sobre mim que, além de eu não conhecer, estavam cobertas por camadas nojentas de orgulho.

Acho que não sei escrever mais. Passei tanto tempo sentindo e apenas isso que agora todas as palavras me parecem um diário horrível e mal escrito ou um desabafo vomitado. Se vocês querem um vômito que eu não consigo tirar da barriga, lá vai: não suporto criar paranoias que não fazem sentido. Meu corpo fala e eu sou uma boa ouvinte. Ele falaria se eu não estivesse sozinha. Mas alguma parte minha não quer que o passado vá embora tão prontamente ou acha que o universo se preocupa demais comigo para me dar algo especial, digo, diferente.

Negativo;
afirmativo;
positivo.

Viajei, então, sem sair de casa pois, citando o óbvio, casa é onde nosso corpo está. Quem sabe minha relação com as cidades não se projete nas artérias e correntes que habitam minha pele? Se libertar de cicatrizes é algo dolorido e eu sempre falei sobre isso, até enquanto dormia. Eu tenho muitos medos e traumas que me perseguem mas que, por motivos claros, eu fujo. Mas agora estou me construindo, tijolo por tijolo, para aguentar o que estiver lá fora. Ó céus, eu pareço uma adolescente clichê aprendendo a viver! - alguém me avisa que é exatamente isso o que sou?

Fique inteira. Se esforce para viver. Tem alguém te dizendo algo. Escute..

Escuto.



Amor

Livramento

16:09



Morning sunshine




Leia ouvindo: Depois - Tribalistas

Hoje eu me lembrei o motivo pelo qual não escrevo sobre você há tanto tempo - porque eu sempre escrevi para você. Mas agora eu estou determinada em encerrar esse ciclo vicioso entre achar que você é o cara certo e ter certeza que eu não quero te ver nunca mais. Então, por isso, hoje, eu pedi esse computador emprestado para escrever sobre/para você, sem que você ouça de mim, necessariamente. É estranho, sinto que eu perdi o jeito com as palavras, mas sei que logo tudo volta a ser bem familiar. Então não estranhe se eu não parecer eu mesma, estou apenas conversando com essa velha amiga que eu chamo de "eu".

É engraçado como a gente só aprende determinadas coisas apenas olhando para trás; olhei hoje e vi que, por Deus, como eu arrisquei tudo por você. Isso, com certeza, é algo que você não vai entender ou reconhecer, mas que é tão claro pra mim. O tempo todo eu estava numa linha tênue entre ser quem você precisava que eu fosse e surtar completamente por não conseguir. Hoje eu tenho uma cama de casal e durmo sozinha - sei que á te convidei algumas vezes mas, sinceramente, não me vejo dividindo essa vida caótica com mais ninguém além de mim. O que estou querendo dizer é que me esqueci por uns dias e não pensei no que eu realmente queria. Acessar esse "realmente" é meio chato e dolorido e eu ainda não tenho a resposta certa, mas olha só a vida que vivemos. Extremos opostos e eu não posso viver a mercê desse jeito.

Aprendi comigo mesma que eu sou um paradoxo: preciso de segurança mas não quero estar presa. É como um seguro de viagem. A segurança que eu sentia em você era única e especial, mas em algum momento isso passou a ser minha corda bamba. Você pulou fora antes que eu percebesse a dor que eu sentia no peito. Voltou antes que eu pudesse me costurar. Depois foi embora, de novo, antes que eu pudesse me lembrar de  como era seu rosto. Você iniciou um ciclo que eu, quase um ano depois de ter quebrado um anel de coco de péssima qualidade, não consegui encerrar. Me coloquei em risco confiando que você sabia o que estava fazendo. E não sabia. Ainda não sabe porque tenho certeza que quando você sentir miserável de novo, é a mim que você vai mandar mensagem pedindo aquela massagem no ego que eu me recuso a te dar.

De certa forma, eu sinto que você me deve algo. Você me deve submissão. Amor eterno. Gratidão profunda. Todas as suas histórias de bar. Você me deve ser sua dor mais horrorosa e terrível porque é exatamente o que você é pra mim: uma decepção típica de um relacionamento adolescente demais para sequer dividir uma cama visto que a gente não tem responsabilidade para cuidar do coração um do outro - se fosse só sexo, estava fácil. Você me deve um pedido de desculpas por ter entrado na minha vida e bagunçado o que havia de mais certo em mim. Talvez seja por sua causa, por medo de te encontrar no metrô ou qualquer coisa do tipo, que eu ainda estou presa nesse passado que não me parece certo. Desculpa se te carreguei de culpa, mas agradeço por ter estrago tudo pois eu precisava muito de um tempo pra pensar.



Hoje eu me livro, ou no minimo aceito que você foi mais um erro maravilhoso que cometi, para buscar um propósito que não envolva eu e você tendo uma filha no final. Eu quero que você seja feliz, eu juro que quero. Mas do mesmo jeito que te falei naquele quarto de hotel, não quero estar perto para ver isso. Provavelmente porque eu queria ser parte da sua felicidade, mas não suportaria a sua inconstância. Te juro que estarei sendo feliz daqui, de Belo Horizonte ou talvez de outro lugar, mas não sei como ainda. Sozinha é tudo mais difícil, mas também é muito mais emocionante.

Perdi as contas de quantas vezes eu me despedi e acabei voltando para pedir algo. Eu sei que isso pode ser egoísta - e de fato é -, mas eu não estou questionando meus defeitos aqui, nunca disse que seria fácil ir embora ou que isso fosse uma vontade certa. Eu tenho muito medo do que a vida tem preparado para mim e você fazia tudo parecer leve. Mas agora é hora de eu mesma me fazer leve e levar leveza para onde eu for. Parto em alguns dias para um lugar que nunca fui e sozinha porque eu posso. Porque eu trabalho, porque eu tenho minha casa e tenho meu dinheiro. Tenho tempo - coisa que, convenhamos, você não tem nem para você mesmo. Isso significa que não vai ter mais espaço para você daqui pra frete porque preciso dos vagões vazios para a viagem não pesar e eu precisar parar ao longo do caminho para descarregar. E se eu chega sem nada, bom, pelo menos eu cheguei.

Peço, ritualisticamente, que você suma. Que você pegue todas as dores que me causou e leve com você como exemplo - essa sua namorada nova é incrível, por favor, não erre com ele de novo. Peço que você seja representante do meu passado e, em troca, eu prometo não te procurar para resolver qualquer assunto pendente. Algumas vezes, é preciso lidar com a dor não lidando com ela. E eu quero a leveza de poder deixar você ir embora, da mesma forma que você me assistiu saindo do metrô - foi tão bom, eu me senti tão bem sem sua energia no meu corpo (apesar de me sentir suja).

Esse não foi um bom texto pois estou guardando os melhores para o livro que publicarei em breve. Você não merece uma boa crônica, ou um bom poema, mas você merece respeito. E em respeito aos 2 curtos anos que compartilhamos a vida, encerro com todos os pontos que você quiser(!!!!!). Anuncio minha partida e anuncio a sua volta para ti mesmo. E apesar de sentir que você me deve todo o seu império, eu também só espero que você me respeite e reconheça o meu cansaço. Estou cansada de ser a amante, a estrangeira, o caos, seu ponto fraco. A partir de agora, eu sou problema meu. Me deixe comigo.

cabeça bagunçada

eu odeio poesia

13:25



Leia ouvindo: Drive Darling - BOY

Aqui estou eu. Alguma parte de mim precisa voltar no tempo, antes de tudo isso virar "tudo isso" propriamente dito. Outra parte, por sua vez, tem uma preguiça imensurável de tentar e de viver. A mente humana sempre me fascinou, porém, a minha mente é a mais codificável que eu conheço pois, mesmo abrigando-a, eu não a entendo. Estou coberta de feridas e dores, machucados na pele e no peito - principalmente no peito - mas não existe nada externo que me chicoteia. Esse parágrafo é muito menos subjetivo do que parece, mas a verdade é que eu só estou tentando direcionar as melhores palavras para o que parece indecifrável.

Acho que em algum momento eu já mencionei a minha inevitável dificuldade em ficar feliz. Há alguns dias eu descobri que confundo perfeição com felicidade, o que me parece bastante justo visto que eu me cobro muito mais do que deveria - o que eu ainda não descobri é de onde vem essa cobrança imensa e exagerada. Essa dor e essa pressão me tiraram a leveza - fato que eu carrego há meses e não consigo me livrar. Perdi as palavras que costumava usar para tirar o pus do coração e das costas. Perdi a esperança de conseguir mudar.

Eu penso em desistir. Se eu disser que não, infelizmente, estarei mentindo. O que me mantém de pé - de pé eu quero dizer ainda tentando pois eu não consigo, ainda, ficar de pé - é me lembrar do porquê de ter começado. Mas eu me esqueci, acredita? Porque o porquê foi uma puta mentira. Uma mentira que eu inventei para dar algum sentido à minha existência que por si só não tem sentido. Quanta inutilidade para um amontoado de células e de carbono, um pó de estrela que no fundo só queria ter continuado sendo um pó de estrelas. Talvez, se eu só fosse, e parasse de tentar ser, eu seria mais útil.

Enfim, no meio desses pensamentos que mais me consomem do que me tiram da cama, eu me lembrei de uma cena de Guerra Infinita em que o Doutor Estranho - acho que foi ele mas se não foi, Teusão, me desculpa por falhar como sua ex namorada - visualiza todas as possibilidades possíveis para um final feliz e pleno daquela situação. Estou nesse dilema. Calculei, na minha mente nada robótica ou engenhosa, todos os cenários da minha vida e encontrei apenas um em que eu estaria feliz. Satisfeita. Sorridente no banho e grata. E adivinha qual é?

Subjetivo demais? Desculpa. Por mais que eu tenha perdido a prática da escrita eu ainda sou poeta. E preciso deixar de achar que se assumir poeta é prepotência pois não é privilégio algum sentir dor em toda folha que cai de uma árvore. Na realidade, é mais um castigo que o destino deu pois ser indiferente é muito menos penoso do que ser a intensidade em pessoa. No fim das contas, é isso. Ser poeta é um castigo e eu ainda possuo o castigo de não ser a melhor poeta de todas. Talvez, se eu fosse, as palavras fariam mais sentido do que fazem em minhas mãos. Talvez, se eu fosse, poesia seria meu propósito e eu viveria por ela - mas não é, eu odeio poesia, são sentimentais demais.



Sempre quando escrevo eu percebo que nasci pra isso. Não porque eu faço isso bem, longe disso. Mas sim porque é quando eu fico transparente, ou como meus amigos costumam dizer, eu viro filha de vidraceiro. É bom ter o peito aberto quando é necessário - mas eu costumo falar muito sobre medo, né? E o peito aberto dá um medo do mundo. Apenas para resumir a presença do medo: eu o tenho. Tenho muito. Tenho medo de realizar os sonhos que criei e os que não criei, mas que estão aqui e que existem mas eu não sabia. Os que não existem também. O quanto minha cabeça se perdeu é um mistério que precisa ser tratado com crisocolo e rivotril, quem sabe. Mas para ser sincera, eu só estou perdida - e sempre fui muito boa em me encontrar. Essa é só mais uma fase que vai virar ou só mais um livro que eu transformei numa história de merda e sem graça que absolutamente ninguém vai querer ler? Nunca fui boa escritora. Desculpa Clarice, desculpa Marina.

Perdi o fio da meada. Preciso voltar a sentir algo para escrever. Pronto. Lembrei que daqui alguns dias estarei partindo para a nova vida que nunca planejei. Isso dá um vazio, sabe? É como se todo esforço não serviu muito pra algo. Mas ainda assim é uma boa vida. O que é ruim é quem está cuidando dessa vida - eu. E a bendita solidão que já é minha velha amiga hoje nem me incomoda mais. No fundo, nós duas sempre fomos o complemento da outra e eu só aceitei. Aceitar é o melhor caminho para parar de doer algo profundamente.

Ainda me restam alguns parágrafos de poesia para que meu peito esteja livre. Vou falar de como eu sinto falta de ter 15 anos. Aos 15 anos eu ouvia Arctic Monkeys e só pensava na vida que poderia ser - porque sonhar é sempre mais fácil do que realizar e quando se tem 15 anos a gente acha que tudo cai do céu quando se completa 18. Eu sinto falta, sobretudo, das músicas que deixavam a minha vida igual a um filme do Wes Anderson. Sinto falta da chuva, do frio, da sensação de estar crescendo e de ser a pessoa que eu quisesse. Eu tenho 18 agora e acho que decepcionei a Bárbara de 15 - mas se ela estiver decepcionada de fato, que se foda, ela não sabia de nada, pirralha escrota. Acho que o único sonho que ela realizou mesmo foi conseguir comprar ingresso pra ver o tal do Arctic Monkeys. Valeu a pena? Ainda não sabemos.

Quanto mais escrevo mais percebo que sou uma bola de caos. E que bom, né? Me diz que isso é bom. Se não for, terei que repensar todo meu curso de letras - e trocar pra biologia pra procurar um sentido cientifico pra vida, e não tão lúdico quanto a poesia. É muita ilusão acreditar que a gente vive porque é bom - a gente vive porque somos apenas um erro que Deus cometeu e agora ele, com ódio da humanidade, tem que alimentar essa raça de corações barulhentos que, por puro orgulho e vaidade, acha que palavras são feitas para embelezar a alma. Fomos criados para destruir o mundo e o mundo foi criado para nos destruir. Talvez eu deva fazer filosofia.

cabeça bagunçada

Texto de despedida

12:52


Leia ouvindo: Last hope - Paramore

Dentre minhas limitadas qualidades, eu posso afirmar que sou uma pessoa de compromisso. O que, na maioria das vezes, me causa um estresse desnecessário porque hoje em dia ninguém faz questão de não ser egoísta e, consequentemente, ser gentil. Por isso, meu coração está partido. O ano de 2018 foi, de uma maneira resumida e sincera, um caos, talvez, mas um caos bonito de se ver. É tipo aquela cena em que está todo mundo se batendo e no fundo está tocando uma música clássica pois o caos também precisa ser apreciado e vivido. Entretanto, esse caos não me foi tão favorável assim pois, entre outras coisas, eu estava ocupada demais tentando não morrer. 2018 foi um ano que eu fiz muito esforço para me manter viva.

Mas calma. Esse texto de despedida não deveria ter teor melancólico porque, a boa notícia é que tudo melhorou - ou está tendenciando a melhorar. O que eu não terminei de falar no parágrafo anterior é o porquê de o meu coração estar partido. Ora, eu não tive compromisso algum comigo mesma. Nas poucas vezes que eu escrevi era um último suspiro de desespero, um sentimento intensificado de beatitude ou um grito de ajuda. Às vezes, os três juntos, talvez. Porém eu não tive tanto compromisso com as palavras igual eu gostaria de ter tido. Isso me deixa bastante cabisbaixa mas, ao mesmo tempo, me deixa animada para o próximo ano que é uma oportunidade de fazer melhor.

Não me julgo, de qualquer maneira. O caos instaurado me deixou na inércia e acabou que eu só vivi aquilo que escolhi viver. Tantos sonhos desmoronando ao mesmo tempo, tantos planos mudando de última hora e um coração nada preparado para abruptações, mas que teve que lidar com isso de um jeito ou de outro. O meu "outro", no caso, foi fingir que nada estava acontecendo - o que é bastante contraditório pois eu sou a pessoa que mais levanta a bandeira do auto conhecimento (depois da minha mãe, talvez, beijo Dona Angélica). Isso, portanto, trouxe consequências tais quais momentos intensos de paz e surto.

Paz. E surto. A paz, quando bem sentida, era preenchida pela beatitude anteriormente mencionada e eu, que não estava tão preocupada em registrar o momento, deixava passar e ficava apenas com a sensação. Sem palavras. O surto, por sua vez, era sofrido em silêncio pois as palavras apenas aflorariam a dor pré existente. Sem palavras também. Resultado - apenas consegui escrever últimas gotas de copos de água, poucos fluxos de consciência e muitos artigos de opinião que nunca postei aqui pois o medo esse ano também foi inerente. Paz, surto e medo. Desequilíbrio total.


Numa retrospectiva rápida eu: passei meu primeiro carnaval intenso, terminei meu namoro, descobri o que é amor próprio - e esqueci também -, fiz novos amigos, estudei até não aguentar ouvir palavras difíceis, me guardei dentro de uma gaveta, voei sem asas, voltei com meu namorado e terminei com ele no dia do meu aniversário - fiz uma festa de aniversário e me apaixonei uma semana depois, entrei num relacionamento nada sério - o que foi a experiência menos Bárbara Morais que Bárbara Morais já teve -, fiz quinhentos vestibulares e surtei por causa de todos. Passei em alguns, obrigada pelos parabéns, mas outros eu ainda estou esperando o milagre. Briguei com meus amigos, o que me fez perceber que eu também machuco as pessoas - e que eu realmente tenho amigos. Mudei o curso, a faculdade, voltei pra estaca zero e me questiono todo dia se essa é a escolha certa. Comecei a namorar. De novo. Com aquele meu relacionamento nada sério. E isso tudo foi ontem.

E hoje, estando sozinha nessas férias que não são férias pois tudo o que eu preciso fazer é estudar o que amo, me peguei refletindo quais são minhas metas para 2019. E minha meta é: ter mais compromisso. Compromisso não só com a certeza, pois isso é fácil. Mas, principalmente, compromisso com as coisas que ficam nas nuvens e que eu não tenho controle. E compromisso quer dizer deixa-las acontecer de maneira leve pois metas são, no fim das contas, especulações nada favoráveis do nosso futuro. Quero ter compromisso com meus caos, meu acaso, com minhas beleza e, sobretudo, com as folhas em branco que me aguardam - várias metáforas num parágrafo só, né?

Portanto, meu caro leitor, agora que você entende minha oscilação entre paz e surto, você percebe que meu caos não era eufemismo. Dessa forma, eu sou obrigada a me despedir da Bárbara que iniciou o ano de 2018 em São Paulo, com a certeza de que aquele seria seu destino e que as coisas a partir dali dariam certo - porra, deu tudo errado. Mas como dito anteriormente, de uma forma linda. Esse texto que, por sua vez, é um texto de despedida, significa o abandono conivente e quase maternal de alguém que não sabia muito bem o que fazer. Bom, eu ainda não sei, mas o que difere é que agora eu pelo menos vou tentar. E tentando eu consigo alguma coisa. Anos ímpares são meus anos da sorte.

PS: Eu não esperaria crônicas iguais as que vocês estão acostumados a ler. Vou mudar umas coisinhas.

Arte

Me desculpa, Baco, queria ser você

13:19




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Sei que eu não sou muito de publicar textos que sobressaem meus sentimentos individuais e até um pouco egocêntricos. Sei que eu mais abandonei a escrita do que a fiz de refúgio nos últimos tempos. Mas quando aparece algo que te tira do rumo, te sacode e, até mesmo, te traz de volta a vida, chegar atrasada no ultimo dia de prova se parece justificável - visto que eu acordei de madrugada pra escrever isso e tive um devaneio, quase um sonho (não sei ao certo se eu estava dormindo). Acontece que passei as últimas semanas ouvindo o álbum do Baco Exu Do Blues, Bluesman, e já na primeira música eu me arrepiei da cabeça aos pés. É muito difícil expressar os sentimentos mais profundos que eu guardo dentro de mim, aqueles que, às vezes, a gente tem até vergonha de admitir que sente. Mas, entre eles, eu sempre me senti um pouco culpada por me identificar com músicas e artes em geral sobre o movimento negro. Sempre achei que eu não tinha o direito de cantar alto, de saber os ritmos - desde quando eu percebi que sabia cantar todas as músicas do Racionais mesmo não tendo vivido um quinto daquelas letras. O álbum do Baco me fez entrar nesse sentimento um pouco mais, um pouco mais intensamente,  mas me distanciando da culpa e entrando de cabeça na melodia e no embalo que todas as músicas têm a oferecer. Então, hoje, eu só reconheço o meu privilégio de ser uma pessoa branca e ter o espaço pra enaltecer essa obra que merece uma atenção enorme, entretanto, ainda com um pouco de receio de pisar onde não devo. Foi quando eu entrei no ônibus e vi um homem que vendia capinhas de celular para ajudar uma clinica de reabilitação. Mas a capinha era tão barata que é sabido que o trabalho escravo estava inerente naquilo. E aí ficou a pergunta. Qual mundo eu vou salvar hoje: o mundo das drogas ou a exploração laboral? E então eu percebi, minha finalmente ficha caiu. Não importa se começarmos a fazer tudo perfeito a partir de agora, nada vai dar certo. Ou não certo o suficiente para que a gente possa presenciar o bem se alastrando, quebrando prédios e libertando os presos. O que isso tem a ver com Bluesman? Bluesman me fez perceber que a gente não precisa mudar o mundo, mas aprender a viver nesse mundo meio bosta. O que não é necessariamente ruim, mas é o que tem pra hoje. Não sei se foi a intenção de Baco fazer-nos refletir sobre isso, mas se a questão social dentro do álbum está presente - e está -, eu consegui aplica-la de uma maneira abrangente e que, sinceramente, ao mesmo tempo que me deixou pessimista, me deixou mais tranquila. Já faz algum tempo que eu percebi que eu venho perdendo as esperanças e Baco só me trouxe pro lado certo: não desista, apenas jogue o mesmo jogo que eles. 

Mas agora falando sobre o aspecto que está florescendo na minha vida agora. O aspecto que não tem nome, nem cor, nem cheiro. O aspecto que apenas Baco conseguiu traduzir perfeitamente bem em algumas músicas. É sabido que ele fala bastante sobre doenças mentais. Achei que esse fato era de senso comum até eu ver que ele precisou explicar ao seu público o que estava escondido nas entrelinhas. Nossa sociedade está tão iludida assim?, pensei. Esses sentidos e sensações são mais presentes no nosso dia a dia do que a gente gostaria, e fatalmente não é tão simples falar sobre eles mesmo sendo tão inerente. E mesmo sendo tão inerente, a gente ainda precisa decifrar os versos pois nada está claro o bastante para falar sobre isso. Apesar de algumas músicas estarem disfarçadas de uma grande homenagem pra ex - eu sei bem o que é isso -, não precisa reouvir muitas vezes o álbum pra perceber que Baco é gente como a gente - e está perdido. Mas a solidão não precisa ser tratada como aquela calcinha suja que a gente taca pra debaixo da cama. Muito pelo contrario, a gente deve transforma-la em arte.  O álbum, em determinados momentos, me lembrou uma instalação de Tracey Emin que chama "My Bed", em que ela reproduziu sua cama na qual passou vários dias deitada, cercada por garrafas de bebida e embalagens de comida, mergulhada numa tristeza profunda, indescritível, porém, bastante comum a todos nós. Essa paisagem não me é estranho, por exemplo. Isso, pra mim, é lindo e provavelmente é uma das instalações que eu mais amo no mundo pois retrata de uma maneira nada glamourosa um sentimento que não precisa de glamour pra ser retratado. E quando eu ouvi Bluesman pela primeira vez eu só consegui visualizar esse cenário pois, apesar de ser lindo, existe uma dor profunda que fez Baco rabiscar palavras por dias, sem sentido, com raiva, como um desabafo, com medo ou até mesmo sem medo algum, apenas mordendo a pele pra abafar seu maior grito. A gente que está por fora nunca sabe o sofrimento que envolve produzir arte. 

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                                        "Me deixe viver ou viva comigo 
                                         Me mande embora ou me faça de abrigo" 


Esses primeiros versos de Flamingos refletem bem o que tenho vivido nesses últimos meses. Uma vontade imensa de viver, mas, ao mesmo tempo, uma preguiça de fazer dar certo. Fazer o que dar certo? Não faço ideia. Mas temos preguiça. Temos saudade e a certeza de que não se pode banhar duas vezes no mesmo rio, ou seja, por mais que um momento se repita, ele jamais será o mesmo. Reparei também que nessa música a simplicidade é tão presente que podemos enxergar com clareza todas as descrições cronológicas que são feitas. Conseguimos nos imaginar usando camisas suadas estampadas de flamingo, ouvindo exalta na quebrada, gritando: eu me apaixonei pela pessoa errada. De todas, essa é a música mais confortável do álbum. No meio de tantos sentimentos que se confundem com os sonhos eróticos com a Beyoncé, existe uma batida tão leve que traz uma mensagem profunda durante um sono de quase dias. Um sono esse que eu preciso, inclusive, e acredito que Baco também. Portanto, o conforto vem como uma brisa de verão. É possível sentir o vento batendo e o cheiro do mar quase que te enrolando, te convidando pra entrar - como uma boa mineira, eu nem lembro mais o que é isso, mas sei o que é nostalgia. E nostalgia é um sentimento horrível. Se a vida fosse aquele filme do Adam Sandler, "Click", os momentos nostálgicos seriam aqueles que a gente com certeza voltaria para viver de novo. Mas o que mais aprendemos nesse filme? O tempo fica no seu tempo e a gente lamenta, mas segue em frente.


Eu não ficaria confortável comigo mesma se eu não mencionasse aqui a música "Girassóis de Van Gogh". No fundo, esta é a que eu menos tenho o que falar pois nem eu entendi os impactos que ela teve sobre mim. Só sei que eu não sou mais a mesma. Entretanto, quando falamos de depressão, os girassóis de Van Gogh propriamente ditos são um símbolo bastante comum e representativo pois este era um artista bastante complexo e que deixou muitas marcas para a história da arte relacionadas a esse assunto. Falei apenas mais do mesmo, né? Não importa. A arte visual é um assunto bastante delicado pra mim, que eu busco, até hoje, me encontrar e não me envolver mais do que eu preciso com isso. Van Gogh, ao contrário de várias outras pessoas, não é um artista tão importante pra minha vida - quem sabe, um dia, eu escreva sobre os pintores que me pintaram. Mas o que eu acho interessante no álbum do Baco é como ele trata essa questão da tinta em suas músicas, explorando outros aspectos da arte, falando, inclusive, sobre Basquiat, que começou a chegar nas escolas agora. E se vamos falar de tinta, quero ressaltar um dos versos mais lindos do álbum que, não por coincidência, eu espero, finalizam esse simbolismo em forma de música.

"Sou meu próprio Deus, meu próprio santo, meu próprio poeta
Me olhe como uma tela preta, de um único pintor
Só eu posso fazer minha arte
Só eu posso me descrever
Vocês não têm esse direito
Não sou obrigado a ser o que vocês esperam
Somos muito mais!
Se você não se enquadra ao que esperam
Você é um Bluesman"




Mas no fim das contas, há uma música, entre as nove, que me chamou mais atenção. Talvez pela verossimilhança com minha própria vida e com esses sentimentos que eu anteriormente citei por serem vergonhosos demais. Não estou apaixonada, mas mandei essa música para umas três pessoas que eu queria queimar a pele, bem de perto. Portanto, o que mais me chamou atenção nessa música foi a intertextualidade - talvez meio despretensiosa, mas foi exatamente isso que fez com a música me levasse - que ela faz com um poema de Manoel de Barros que chama, justamente, "Difícil é fotografar o silêncio". E não é que é difícil mesmo? 

                                                       "Fotografar o silêncio é tão difícil
                                                        Fotografar o meu medo é tão difícil
                                                        Fotografar a insegurança é tão difícil
                                                        Eu disfarço tudo com cigarro, cerveja e sorriso"

                                                       




O meu problema sempre foi a intensidade. Isso é muito claro nas coisas que escrevo e pinto. E senti, portanto, uma compaixão enorme por essa obra de arte que, com toda certeza, será conteúdo obrigatório nas minhas aulas. A maneira como ele esclarece as questão pessoais que ficam entre a vida e a morte, e até mesmo entre a vida e a pior parte da vida, é única e são poucas pessoas que conseguiram fazer isso. Além do mais, a bagagem que deve se carregar para se manter sensível num mundo de pedra é gigante e tem que ser reconhecido. Baco, meus alunos irão te conhecer. Farei uma prova sobre seu álbum daqui alguns anos. Suas músicas, com tantas referências e figuras de linguagens, variedades, poesias, métricas desleixadas e, além de tudo, arte para fora e para dentro, devem, sim, sair do palco e ir para o peito, assim como foi pro meu. Saio de Bluesman uma pessoa nova. Uma pessoa que não sentiu tanto impacto em ESÚ - mas que deveria - e que, agora, para todo lugar que eu olhar, aceitarei as pessoas como Bluesman, Blueswoman, em potencial. 

Amor

A vida dos sentimentos

15:35



Leia ouvindo: Cecília - Anavitória

Escrever para você é até mais fácil do que escrever sobre você. Mas, alguma coisa dentro de mim, algum bicho que cruza essas veias precisa ser defenestrado - tomei a liberdade de substituir a janela por boca e espero que você entenda que, na verdade, o bicho são palavras e que as palavras são tudo o que eu gostaria que você entendesse. Não sou nem um pouco didática, o que, provavelmente, seja o principal empecilho entre a gente. Você dá aula de geografia e tudo é tão milimetricamente calculado entre escalas e proporções. Enquanto eu, que dou aula de alma, ou seja, de poesia, viajo até no ponto torto dos poemas dadaísta. Isso me impede de te amar? De amar sua objetividade e, quem sabe, amar até a raiva que você me faz passar por não ler minhas entrelinhas?

Infelizmente, matérias escolares não são nossa única diferença. As diferenças, que se resumem em falhas comunicativas e uma visão divergente do futuro, podem ser apenas um teste divino que me faz querer, cada dia mais, lutar contra os demônios e abrir as portas do paraíso, onde você me espera(ria). Mas ao invés de falar sobre as coisas que nos distanciam, decidi escrever sobre as outras mil coisas que nos fizeram chegar até aqui. As outras mil coisas que eu penso quando deito a cabeça no travesseiro e tento refazer meu dia só pra passar mais tempo com você. O seu sorriso, por exemplo, quando qualquer pessoa fala qualquer coisa. E até quando você ri de nervoso e finge que tá tudo bem só pra não piorar mais a situação. Sempre foi assim. Sempre gostei que fosse assim.

Entretanto, de uns tempos pra cá, eu venho me sentido fraca. Acordo cedo, coloco logo uma máscara que só cai de noite, no banho, quando o peso finalmente desaba pelas costas e eu não tenho mais força para sustentar tanta dor. Eu tenho me sentido fraca por ter medo de ser fraca, sendo que eu fui forte por tanto tempo. Mas agora tudo me parece uma ameaça; um teste constante. Tenho medo de usar as palavras e que você me olhe torto, como quem julga o livro pela capa - o que não faz sentido, sendo que sempre fui o mais aberta possível pro mundo inteiro. Crescer é difícil e crescer ao lado de quem ama pode ser um pouco menos penoso. Mas por que eu quero tanto que você suma? Por que, no meio da noite, eu penso tudo seria mais fácil se eu nunca tivesse te tocado? Algumas coisas são elásticas e nenhuma mola volta ao seu estado original. Somos molas e você me deformou de uma forma linda, porém, instável. Linda porque você virou minha poesia mais linda - e instável pois, bem... não me tornei mais consciente depois de você.

Sempre defendi que amor não sustenta nada nessa vida, nunca foi o bastante para carregar o ar que respiramos - é preciso ter firmeza. É preciso ter certeza. E por mais que eu queira me justificar por tudo o que eu falo, sinto que as palavras fazem mais sentido na minha cabeça mas deixariam de fazer sentido se você as interpretasse - por fim, eu prefiro o mistério. Prefiro que a interpretação vire um sonho lúdico e que a gente continue nessa sinestesia infinita, uma figura de linguagem muito mais bonita que a realidade; do que acabar com tudo por conta de uma vírgula - ou um ponto e vírgula, ou, no pior dos casos, um ponto final. Gosto do silêncio, raras vezes, mas principalmente quando você está deitada no meu colo e eu sinto a responsabilidade de permanecer imóvel - qualquer inspiração ou expiração é uma ameaça pra destruir o mundo que tanto penei pra construir. Do seu lado, mas paralelamente ao seu.



Falar sobre amizade, por fim, é mais difícil que falar sobre o amor - amizade é uma manifestação mais pura do amor, pois não tem o peso do orgulho, não tem a imundice da raiva. Um beijo na boca é mais tóxico do que um toque, talvez, quando o toque não vem carregado de paixão. E falar sobre o que a gente tem é confuso pois tenho privilégios demais dentro dos dois conceitos para reduzir em um só.  De qualquer maneira, espero que fique um pedaço de quem eu sou em todos os âmbitos pois não quero ter que ser outra pessoa para ficar perto de você. Quero poder me colar e descolar quando necessário. Quero poder virar seu travesseiro e você meu cobertor. Quero ter a liberdade de desligar o telefone quando me faltar palavras mas também de poder discar seu número quando a saudade transbordar. Quero ser, por fim, sua. Me deixa ser.

Quando eu, então, puder usar minha poesia sem medo, puder proliferar minha alma em forma de flor, eu sentirei conforto em ficar. O aconchego nem sempre vem em tsunamis e terremotos - na maioria das vezes ele vem num vento bem fininho. Nesses que até sussurram seu nome; e deita; e fica. Quando eu, por fim, puder soltar minhas asas ao teu lado e te convidar para voar comigo, saberei que nosso encontro é milenar e prometo nunca mais duvidar de uma palavra que disser - não se pode contrariar a voz dos anjos. E se um dia, daqui uns anos, a gente se reencontrar - pois nada deu certo e a gente precisou se separar para construir tudo de novo -, nada mudar, saberei que meu sorriso, no fundo, era seu e ele estava só esperando você chegar.

Talvez eu consiga escrever melhor do que acabei de fazer e com certeza você merece mais do que palavras abruptas num texto da internet que quase ninguém lê. Mas eu só queria que você soubesse que eu estou tentando. Tentando, além de ser forte, não deixar a fraqueza se tornar um problema. Tentando ser o melhor que posso ser pois você merece a parte boa que tenho a oferecer e não a confusão que se instala esporadicamente, sempre quando mercúrio está retrogrado, ou quando o sol está em um signo de água. Mas espero que você também tente me amar mesmo assim, mesmo eu sendo essa pessoa desconexa e sem coesão, porque infelizmente eu não posso ser melhor do que isso. Minha função é organizar o mundo mas o mundo não se preocupou em me organizar.